segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Dodói

toda vez que machuco você vem com o metiolate. voce tem um metiolate que não arde em mim.tem horas que eu também abuso, faço estripulias. subo naquela árvore alta que você tem medo e só olha de longe. cê falou pra eu não subir. esperei você dormir e trepei nela descalça. só não tenho medo porque você é. você é em mim. tenho raiva que você deixa eu fazer tudo, você me esquece pra lá. e diz: não adianta falar com ela, ja tentou falar com ela? ela vai fazer mesmo assim. tenho orgulho quando cê fala assim de mim. cê me respeita e me deixa ser. você me é também. quase todo dia. mas na maioria cê cala e sai. porque eu sei que viver perto de mim arde mais que metiolate. cê perde a paciência e me espanta, como se eu fosse um mosquito. acho tão bonito e cê sabe que eu não vou prometer nada. que não vou mais fazer, que não vou mais me ser. eu vou. porque quanto mais eu me sou, mais eu sou de você.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

feito barata, feito cupim...

nada do lugar diferente da nossa casa é legal. As coisas são estranhas, mais caras, mais distantes, mais fakes, desconfortáveis... a gente fica o tempo todo achando tudo sensacional mas ainda não consegue deixar de desqualificar o costumeiro. Tudo é motivo pra ver o melhor do desconhecido e julgar o pior do lugar de origem. viagens são feitas pra gente se distanciar da gente mesmo. e não há forma melhor de descobrir algumas coisas se não viajando. é muito de longe que a gente entende verdadeiramente o que se quer sempre e pra sempre por perto.

sábado, 5 de setembro de 2009

Caminhante - Antônio Machado

Caminhante, são teus rastros
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar faz se o caminho,
e ao olhar-se para trás
vê-se a senda que jamais
se há de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
somente sulcos no mar.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

eu gosto é de homem tosco

Muitas pessoas me perguntam: porque você só gosta de homem tosco? E eu sempre tento explicar, antes de responder, o conceito básico de homem tosco. Para que elas entendam perfeitamente o termo, para que não restem dúvidas sobre esse meu ponto de vista, para que pelo menos elas respeitem minhas escolhas.

Mesmo com todo o meu poder de síntese, persuasão e minha clareza na exposição de ideias, muita gente ainda acha que sou estranha e tenho um gosto por homens ainda mais bizarro. Geralmente, ainda me olham torto quando suspiro biblicamente pelo Buckowski (tá, aqui existe um certo exagero pois não viveria com ele nem dois dias), Tank Abbot, Benício Del Toro ou o guitarrista do Blind Pigs, Sr. Cristian Targa (motivo inclusive da minha groupiezisse por uma noite). Infelizmente, o perfil físico dos caras que chamo toscos passa por um mesmo enquadramento, coincidem na altura, na avantajada circunferência abdominal e no desleixo em fazer a barba, o que gera uma certa confusão e provoca gritinhos de nojo nas minhas amigas. Mas em mim, desperta um interesse automático... eu diria biológico. Porque as mulheres também buscam sinais que gritam de lá do fundo de seus instintos de cozinheiras das cavernas. É por isso que, quando vejo um cara alto, grande, tranquilo, com atitude, bem resolvido e independente, me dá uma vontade indisfarçável de aprender a fazer um javali com mel na pedra pra ele na hora.

Sempre desconfiei de homem sem barriga. Homem sem barriga tem o ego morando onde? (já que o cérebro não ocupa mesmo muito espaço). É de se pensar. Rosto lisinho, macio e cheiroso eu admiro em bebês e mulheres, mas que não encoste-se à minha nuca um homem de queixo liso. Cabelo bem cortado? Roupa combinando? Óculos coloridos? Respeito e admiro a classe de homens que fazem uso destes adereços e os acho muito machos, pois assumem sem viadagem nenhuma suas opções sexuais. Tenho até algumas táticas, adquiridas em anos de observação e teste degustativos, que apagam ou acendem um cara na multidão. Camiseta passadinha com dobra no ombro e cheiro de Confort é dos meus sinais preferidos pois elimina o gajo na hora e não nos deixa perder nem um minuto do nosso tempo. Já perguntar o preço do Confort acende um cara facilmente, embora eu deva sublinhar aqui o índice que sabe a resposta: 68,75%, onde 68% são os fantásticos gays que cuidam da casa e das tarefas domésticas de um jeito ímpar e muito, muito, muito macho.

Agora, que culpa tenho eu se esses sinais acabam formando pra mim um perfil ogrístico que me mostra por vezes preconceituosa e intolerante? Se automaticamente descarto os fresquinhos, arrumadinhos, simpatiquinhos e preocupadinhos demais com o que os outros pensam? Esse tipo de homem me atrai pelo cordão umbilical, atrai meu instinto maternal e como já resolvi bem minhas fases anais, orais e banais, vejo todos eles como amiguinhos. Já, se aparece na minha frente um cara falando alto o que pensa, carregando a sacola pra mulher, mandando o amigo tomar no cu quando ele vem com aquela de "aaaah, agora vc faz feira pra ela, larga isso vamos beber", metendo a mão na massa (seja a massa que for), com fome de comer (seja o que for), pronto, eu fico submissa. E achar um homem que me faz ficar confortavelmente submissa é deveras complicado. De 10 homens com o perfil ideal, 9 estão disfarçados de toscos mas são na verdades os filhinhos das mamães que trabalhavam fora e foram criados com a dieta da culpa de estar longe deles, o que resume tudo em sevenboys, danoninho e pêra morna. Esses não comem coisas com pedaço, manteiga, cebola, nata de leite... não lambem o prato, não chupam os dedos com a costelinha pingando... Não te comem com aquela volúpia inexplicável mas com um carinho fofo. Homem com nojinho me deixa enojada.

Existem ainda os sensíveizinhos disfarçados de toscos. Estes tem todos os ítens de série que me fariam dar uma volta mas quando a gente olha mais de perto, tá lá: o banco é de couro. Finge de macho e deus sabe o quanto isso custa pra eles. Tem medo de mulher. Tração nas quatro rodas desperdiçada em egocentrismos, na necessidade de falar de si, em comer uma mulher como uma opção diferente de masturbação, como uma punheta sem as mãos enquanto vê TV. Estes são mais raros e tendem a virar amigos de falar palavrão... ou nem isso.

Enfim, a dificuldade em explicar o que a tosquidão de um homem abrange em termos práticos e no que ela afeta diretamente o desejo das mulheres parece não ser só dificuldade minha. Mr. Kenji googlereaderô um post do papodehomem que me fez chegar mais perto ainda do meu próprio conceito. O texto é uma mistura de tapa na cara com 'ensaio raro sobre temas que não devem ser falados'. É um primor tão grande que mudou o curso da minha manhã e tive que vir escrever aqui correndo, nestes 30 minutos antes do meu almoço, o que agora pra mim representa um homem tosco.

E fez mais, fez eu quase resumir tudo em uma só prosa: homem tosco é homem que não foi e não é mimado, independente da estatura, do peso, da forma como se barbeia. Homem tosco largou a casa da mãe de dentro pra fora e não de fora pra dentro e, na vida adulta, trata a mulher com a delicadeza que não aparece na palma das suas mãos, é homem que amolece uma mulher ao respeitá-la em sua batalha, em sua dor, em sua diferença gritante. Homem tosco troca aquela expressão batida de "não entendo mulher" pra "adoro essa imensidão da mulher" e não tem vergonha de ter também sua dor, de pedir um colo quando tudo estiver dureza e ficar pequenininho de vez em quando. Homem tosco é aquele cara que vai muito além do diâmetro do seu pau pra chegar ao tamanho da sua alma, essa que, quando realmente grande, pode provocar na mulher o orgasmo de toda uma existência.

domingo, 12 de julho de 2009

sonho de nunca acordar

Ela entrou, sentou um pouco, ficou muito pouco, levantou e se foi. Mas permanece ali, na cadeira, ao lado da cama dele. Ela vigia seu sono. Todas as noites. Ela o quer tão bem... Nenhum dos dois gostaria que nada daquilo tivesse acontecido, mas aconteceu. E eles não tem mais o sim como opção em suas vidas, porque eles não conseguiram manter a lealdade. Para com eles mesmos. Quando ele se toca, pensa nela. Enquanto ela se troca, lembra dele. Os dias frios passaram a ser mil vezes mais solitários e comer uma coisa gostosa e não dividir com o outro começou a ficar chato. Tristeza no canto dos olhos. Mas eles não podem falar disso. Podem sentir apenas... e sentem. Como uma história de livro antigo, como uma vitória da mesmice e do acaso sobre a genialidade de cada um. Roteiro de clip barato. Trancados em suas casas, um cuida do outro. Em silêncio. A vida se empurra sozinha. Eles não pensam mais em como. Não existe um como. Só existe. Essa vontade de ficar melhor pra si é uma lasca do amor maior, bem maior. Na verdade, cada um anda cuidando muito bem de si pra ficar forte e poder cuidar do outro. Pra sempre. Amor que nasce em silêncio toca a existência de uma forma irrefutável. Indestrutível. Ela ama tudo nele, tudo o que é dele, tudo o que vem dele. Ela acha lindo o jeito que ele inventa a vida. Ela acha lindo o jeito que ele lambe um pedaço de papel pra colar uma ponta na outra. Quando ele olha pra ela, tem sempre um bouquet de flores a ser entregue. Ela aceita mostrando as covinhas. De lá, ele mostra também. É o beijo. O beijo guardado pra sempre que um tem pro outro, todo santo dia. Nada precisa ser falado. Tudo é sentido. Em cada milímetro de pele. Dias mais longos provocando a saudade. A saudade atiçada virando ideia. Ela sabe, ele sabe: não tinha que ser. Nunca vai ser mas já é. Ele desce a rua com uma canção na cabeça e cantarola alto por dois segundos. Quando foi a última vez que um par de olhos o fez cantar assim? E valeu a pena? Com ela, ele sabe. Valeria. Tudo valeria muito mais porque o tesouro um do outro só é real quando eles coexistem. Cada detalhe daquilo tudo daria a melhor história de amor de todos os tempos mas a ironia das coisas preciosas não desiste, não pula nenhum detalhe. Ele não sabe ser amado tanto. Está aprendendo. Ela não sabe amar pouco e ama tudo: o outro, o seu e agora, um pouco mais de si. Como sonhos medrosos não pulam da cama, eles acordam estranhando uma possível felicidade. Possivelmente, confundem com fome. E tomam bebidas quentes a preencher aquele enorme vão. Provavelmente, vão ficar muito tempo sem se ver, apeser de atarem as mãos a cada encontro e, em silêncio, desejarem muito forte que o outro esteja sempre por perto. Por não saberem dar nome a tudo isso, se calam. Um mundo novo se abre e eles não podem entrar. Estão conectados e isso esquenta o coração mas esfria pés e mãos. Outras bocas não falam mais o que eles querem ouvir. Todos os beijos são de isopor. Nenhum corpo se encaixa mais ao dele e ninguém mais arranca dela uma risada seguida de suspiro. Um tem a asa do outro mas não podem devolver, por um castigo qualquer. Talvez por terem nascido com essa doença congênita que é sentir demais. E não falar. Padecem de amar só por dentro. Um poderia salvar o outro mas não querem. Os dois são covardes demais. A janela fica aberta só um pouco. Pra ventilar o quarto. A cama está maior. Fechar os olhos é abrir um outro mundo. Ela dorme com um aperto no peito, coçando seu imaginar. E se só ela mesmo sabe tirar seus sapatos, afagar suas costas, fazer seu coração rápido demais se acalmar? Como poderá dormir? Um vento mais frio que o normal a faz puxar o edredon e se enrolar no canto. Ele beija com muita ternura o seu queixo. Depois a sua boca. Dormem abraçados, pra sempre, num sonho de nunca acordar. E o dia clareia e cada um faz seu café. Fecham a janela e saem pra trabalhar. Ela fecha o livro e salta um ponto antes. Andando pelas ruas de todos os dias, nota enfim um canteiro que nunca tinha visto: eram margaridinhas amarelas olhando pra ela. Sorri e atravessa correndo, pra não chegar atrasada.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Lembretes falsos: leia sempre que pensar em meias

1- pessoas não mudam, apenas aprendem a mentir melhor.
2- amizade é interesse. Se não há nada sendo oferecido, o telefone não toca.
3- dizer não pra dentro é mais difícil e silencioso mas não deixa o erro se repetir.
4 - quanto mais se tem a dar, menos pessoas se encontra pelo caminho.
5 - meias são ítens extremamente íntimos e só devem ser usados na sua própria casa. Nunca fique de meia na frente de ninguém.
6 - Tranque as portas por dentro. Fugitivos sempre tem a chave e voltam bem quando a janta está pronta.
8 - Confie na sua intuição acima de absolutamente qualquer coisa. Se está olhando para um camelo mas sente que é uma zebrinha, não se questione nem ache que é loucura porque sem dúvida alguma, o camelo uma zebrinha é.
9 - Bote preço nas tuas horas pra que pense mais antes de perdê-las com qualquer coisa ou pessoa.
E por fim: troque sempre suas senhas. Especialistas afirmam que esquecer a senha e tentar recuperá-la garante algumas horas de distração saudável num mundo permeado por programas tediosos, fúteis e vazios.

Ah, e sempre apague as luzes ao sair.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Da sua paciência para com o mundo

Invejo, Gertrudes... a sua paciência para com o mundo. Seu olho que paira no momento do outro e ouve. Seu sorriso de prontidão, como um cão de guarda, pronto pra qualquer pedaço de carne que lhe queira comprar amizade. Abomino quem não te veja. Que morrerás pra que isso aconteça. Aplaudo, Elvira... cada passo seu dado em direção a esse nada. Que hora constrói, hora destrói, hora cala. Cada movimento, antes nunca pensado, agora milimetricamente respirado para não incomodar a paz do outro. Acompanho, Oneida... aquele pedacinho de perfume que restou do teu corpo, cansado de tentar expressar a simplicidade de ser assim, humana enfim.